Brasília, 16 de fevereiro de 2011 – 7h15min.
Voltei de BH no dia anterior, depois de uma bem sucedida semana de reuniões e idas a bancos, varas cíveis, lojas e supermercados, até matei um pouco da saudade de velhos colegas de trabalho. Como de costume, depois de uma viagem, tenho a habilidade incomum de facilmente acordar e bem cedo ir trabalhar, hábito que infelizmente vai ficando mais difícil de manter até a próxima viagem. Talvez meu corpo tenha aptidão para caixeiro viajante, já que realmente invejo quem acorda cedo. Acho que ver e ouvir o dia começar pode ser um privilégio democrático diário, ainda mais aqui, na cidade da alvorada.
Como de costume, apesar de mais cedo que o usual, me alonguei, me aprontei, comi, li um pouco do evangelho e fiz uma prece antes de sair. Um dia normal no Riacho Fundo I, cidade satélite de Brasília, onde moro com uns parentes de minha mulher enquanto trabalho no Ministério da Educação como consultor. Parece que choveu de noite, melhor assim, o ar úmido me favorece a respiração, ainda que me exponha a transpiração, que já previa ao entrar em algum dos ônibus velhos e abafados do DF. A gente daqui sente frio a 25ºc! Penso todos os dias quando vou trabalhar, lutando por uma janelinha que seja.
Chegando à parada de ônibus, olhava para o horizonte esperando aparecer um letreiro indicando a Esplanada quando ouvi um sonoro e alcoólico BEM VINDO PROFESSOR! Agradeci, admito que lisonjeado, a melhor recepção que recebi desde o dia anterior. Às vezes me sinto um imã para ébrios, era bem cedo e o meu companheiro de parada de ônibus já estava mais pra lá do que pra cá.
Era uma figura interessante, baixo e atarracado, dispunha de um vocabulário razoável, muito cortês e, é claro, não parou nas boas vindas. A essa altura, apesar da outra centena de trabalhadores esperando pelos seus respectivos transportes, o meu companheiro parecia ter mesmo me escolhido. Gostei da sua figura, exclamou. Entendi que era o chapéu, aliás, tenho de admitir minha culpa em atrair gente bêbada, o chapéu chama a atenção num mundo em que as pessoas parecem preferir o câncer de pele a calçar um Prada pra trabalhar.
Sua presença orgulha nossa cidade, afirmou, erguendo a latinha de Antártica - testemunho de seu conservadorismo, segundo alguns que se dizem entendidos. Você tem postura, explicou. E nossa cidade fica melhor com você aqui. Eu agradecia a cada frase sem saber se olhava para o colega de parada ou se olhava para os ônibus que passavam. Ele me remedou; obrigado, obrigado, obrigado e exclamou, você é brasileiro! Deve ter deduzido do meu sotaque, já que sempre me achei com cara de japonês, pensei com deboche. O Brasil é o amigo do mundo inteiro, continuou. O brasileiro é amigo do mundo! E sem saber o que dizer, continuei agradecendo igual a um gravador. Aceita um trago? Não, obrigado, respondi e finalmente apareceu um ônibus para a Esplanada, o carro tinha a minha idade, dei sinal e me despedi mais uma vez do colega embriagado.
Ao entrar no ônibus me senti bem com os elogios, achei uma janelinha e depois de um tempo pensando na recepção, achei um lugar pra me sentar. Fiquei pensando em como faz bem um elogio, merecido ou não, vindo de onde vier. Fiquei pensando que um elogio e um trago não é muito mais do é oferecido a um professor no “dia dos professores” e percebi que fui privilegiado com essa lembrança em pleno fevereiro. Fiquei pensando em quem foram os professores daquele possivelmente desempregado que me achou na parada de ônibus, e se ele, de alguma forma em sua falta de esperança, não apostava em algo mais dos professores que começam o ano letivo com certo orgulho do ofício. E se ele mesmo não era um professor? Derrotado pela vida, pelo desemprego ou pelas ameaças e chefias inseguras ou estudantes mal informados pelas próprias famílias sobre quem são essas pessoas, os professores. Até porque muitos colegas, às vezes, também parecem não saber muito bem quem são e o que representam.
Me oferece um elogio e um trago e eu já me sinto homenageado. Imagine se nossos chefes, alunos e suas famílias se tornam exemplos, profissionais e líderes preocupados com o próximo e contribuam efetivamente para um mundo mais justo, inclusive salarialmente, em que morar e comer não sejam mais um privilégio? Isso seria uma grande homenagem. E enquanto terminava de pensar nisso dava 8h na esplanada, os dragões apresentavam a bandeira no Palácio Presidencial, em seguida, os seguranças do Ministério da Justiça batiam continência ao hasteamento e quando finalmente era minha vez de descer, a flâmula já estava no alto, e eu, egoísta, pensei que ela dizia: seja bem vindo professor.
William R. Quintal - Consultor do MEC e professor licenciado do Colégio Batista- @wquintal

Muito bom!!!
ResponderExcluirParabéns!